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MOMENTO LÌTERO CULTURAL

POR SELMO VASCONCELLOS

16 de Abril de 2019 às 09:23

 

CLÁUDIA MANZOLILLO – Rio de Janeiro, RJ. 

 

Membro da Galeria “Poetamigos(as) da Coluna Momento Lítero Cultural”

 

O dia
termina
termina
a noite
terminam

a semana

o mês

o ano.

Terminamos.
a semana
o mês
o ano.
Terminamos.

*****

EX-POSTA

 

Pronuncio palavras
bêbada de azuis
contemplo 
a aérea flor 
dos dias
ali o néctar
o sumo
as raízes

 

subterrâneas
se movimentam
escarificam o solo
sulcam a terra
lentamente
calcificam emoções
fragilizadas
petrificadas

 

raízes
expostas
sangram
inclementes
a dor de cada dia.

*****

TRAVESSIA

 

Atravessei um cego na rua hoje
ele me atravessou com sua luz
indicou-me o caminho:
em frente à loja de flores.

 

Atravessei um homem cego
que via flores no caminho.

 

Luzes explodiam 
eram as flores que só ele via
pude senti-las
perfeitas e perfumadas.

 

Centelhas iluminavam a visão
de quem vê na escuridão.

 

Atravessei um cego na rua hoje
ele me atravessou com sua luz.

*****

MOSAICO

 

Quem há de provar o orvalho
que em meus lábios repousa?
Cálido toque me preenche
o peito; restos da noite 
que me presentearas 
com o sumo de vida
que ainda vertias.

 

Assim as pálpebras 
também cerradas 
apuram a visão;
percorrem salas, dobram
esquinas e convertem
o labirinto em saída:
em mar e amplidão.

 

Eis-me frente a frente 
comigo mesma
que de mim não fujo;
apenas me refaço mosaico 
e me construo a cada passo.

 

Se algum fio etéreo ainda busco
é dentro que se escondem o fado e a linha
por isso mergulho e retorno à superfície;
respiro o que me cabe e lambo o remendo.

*****

EXERCÍCIO POÉTICO

 

Desdobro-me em ti:
assim sobrevivo

 

a cada dia                        
no tecido esgarçado
pontuo a falta

 

a cada noite
recomponho o desenho
da primitiva tela

 

assim contemplo a rasura
reescrevo-me em ti
poesia diária e breve
efêmera onda que me alivia

 

venho à tona a cada maré
me invado do que me suprime 
até que o que me falta baste 
até que a última palavra
esgote o mar em mim.

*****

a casa velha ainda mora em mim
há pouco, a placa vende-se
foi posta no jardim

*****

O luto pesa nessa carapaça humana
De risos minh'alma anda à busca

*****

Retratos:
memórias afetivas
na gaveta existencial

*****

Certa vez, comprei sapatos
andaram
hoje nem sei o rumo deles
ingratos!

*****

Ela sentia-se assim.
A vida lhe ensinara
a lição dos sós.
Mas ainda assim
via luz no azul

Mais escuro.

*****

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